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sexta-feira, 9 de março de 2012

O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

O que a esquerda deveria aprender
com os evangélicos



"As massas de homens que
nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos
então nada mais vêem senão o
desvio das crenças estabelecidas.
O institnto de outra vida as
conduz sem dificuldades
ao pé dos altares e entrega
seus corações aos preceitos
e às consolações da
fé."
Alexis de Tocqueville,
"A Democracia na América" (1830), p. 220.

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e
violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o
obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais
precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois
barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma
razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro
de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum
governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa
das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de
participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de
pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles
ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.

Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador
Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no
Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara
dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não
reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos
que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita
pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de
Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas
alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em
1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho
incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas
classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição
política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro
governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários
evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões
periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados
e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas
soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede
comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o
desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram
conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha
uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.
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O crescimento dos evangélicos não é um milagre,
é resultado de um
trabalho incansável
de aproximação com o
povo

O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os
evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas;
homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%,
respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de
escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a
onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população
declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que
não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes
de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais
evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com
os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas
dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.

O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma
Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem
significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de
uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do
poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração
financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de
fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no
poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais
recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um
lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir
intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali
faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário,
retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória
e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores,
prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional.
O lema “un homme, une voix”

Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não
nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não
frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como
palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas
denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e
de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o
Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim,
evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados
com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso
resolvesse o problema fundamental que representam.
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A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou
seus planos,
nunca lhes explicou
sequer o valor do Estado Laico

Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente
espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja
envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O
“não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso
espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de
ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de
um ponto de vista conservador.

Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto
em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta
salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e
salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão,
transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja
imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação.
Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria
e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e
são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé,
não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a
obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a
liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical.
Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do
outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias
igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará,
de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro?

Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias,
na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway.
Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território
nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar
revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões
de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de
aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os
irmãos. A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van,
presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como
faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e
leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de
ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de
evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de
Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem.
Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”,
infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e
permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre
uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.

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