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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Os sergipanos presos, torturados, mortos. Atividades para alunos do 3º ano.

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O relatório da Comissão Nacional da Verdade revelou que três sergipanos foram assassinados pela ditadura militar. Muitos outros sofreram por terem lutado contra o regime de exceção e a favor da liberdade de expressão, ou simplesmente por discordarem do governo dos generais, imposto durante 21 anos a partir de abril de 1964. Alguns guardaram para sempre marcas indeléveis como um registro da coragem de se manifestar contra o arbítrio.
O caráter reacionário da nova fase política configurou-se em Aracaju no dia 1º de abril após a prisão do deputado federal Euvaldo Diniz e do delegado regional do trabalho, que ousaram se manifestar contra o golpe. Lideranças do Sindicato dos Ferroviários também foram conduzidas ao quartel do 28º BC. Mas na manhã seguinte todos foram liberados.
Mesma “sorte” não teve o governador João de Seixas Dória, que retornou do Rio de Janeiro na noite daquele “dia da mentira” e na madrugada do dia 2 foi arrancado do Palácio Olímpio Campos e deposto. Passou meses preso, boa parte do tempo em degredo no arquipélago de Fernando de Noronha. Esses foram os primeiros a sentir a mão pesada da nova ordem institucional.
O primeiro sergipano morto pela ditadura foi o sargento do Exército Manoel Alves de Oliveira, 30 anos incompletos, natural de Aquidabã. Pouco antes do golpe militar, ele foi candidato a presidente do Clube de Subtenentes e Sargentos do Exército, atividade política que certamente o condenou às torturas que sofreu no Regimento Andrade Neves – Escola de Cavalaria, localizado na Vila Militar do Rio de Janeiro, e consequente morte no Hospital Central do Exército (HCE), na mesma cidade, no dia 8 de maio de 1964. Pesquisas apontam que seu assassinato está inserido no quadro de repressão instaurado no país com a chamada “Operação Limpeza”, segundo o relatório da CNV.
A viúva Norma Conceição Martorelli de Oliveira, afirmou que Manoel foi detido em casa, por homens em trajes civis que o conduziram em um automóvel Kombi sem identificação oficial. Ele respondia a Inquérito Policial Militar e foi conduzido para um “interrogatório especializado”. Ao buscar informações junto ao I Exército a respeito do paradeiro, recebeu informações desencontradas. Apenas dois dias depois obteve a confirmação de que o marido estava no HCE. Após um mês de buscas, Norma conseguiu autorização para visitar o marido. Ao vê-lo, percebeu “que o seu corpo estava coberto de marcas, que mais tarde soube serem de ferro quente”.
Também assassinado, o sergipano de Laranjeiras Lucindo Costa, servidor público em Santa Catarina, onde militava no PCB, desapareceu após fazer uma viagem a Curitiba em julho de 1967. Ele tinha 48 anos, era casado e pai de seis filhos. Já havia sido preso duas vezes como subversivo. Posteriormente, a esposa Elisabeth Baader recebeu a informação de que ele morreu atropelado e foi enterrado como indigente. Era mentira, claro. Foi provavelmente detido, torturado e morto.
Preso anteriormente pelos órgãos da repressão, Lucindo mantinha contato com opositores da ditadura militar, como o major Cerveira, mais tarde morto pela repressão, e o professor Vieira Neto, militante do Partido Comunista Brasileiro. À época de seu desaparecimento, Lucindo morava com a família em Mafra (SC) e trabalhava no Serviço de Classificação de Rio Negro (PR), do Ministério da Agricultura.
Também considerada assassinada pelo Estado brasileiro foi a aracajuana Therezinha Viana de Assis, economista que concluiu o curso na Universidade Federal de Sergipe em 1965. Mudou-se para Belo Horizonte, onde foi funcionária da Caixa Econômica Federal. Militante da Ação Popular (AP), Therezinha foi presa e torturada por agentes da repressão entre os anos 1968 a 1972.
No início de 1973, ela exilou-se no Chile, onde fez um curso de pós-graduação na Universidade de Santiago. Passou a militar no Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Após o golpe militar que depôs Salvador Allende, Therezinha buscou asilo político na Holanda. Morou inicialmente em Rotterdam e depois em Amsterdã. Cursou o doutorado em Economia e trabalhou, até setembro de 1977, na área de planejamento da prefeitura de Amsterdã. Therezinha Viana de Assis morreu em 1978, aos 36 anos de idade, naquela capital dos Países Baixos, como resultado das sequelas da tortura a que foi submetida.




Durante o período em que residiu em Amsterdã, Therezinha manteve correspondência com sua irmã, Selma Viana de Assis Pamplona, por meio de cartas. Em depoimento, Selma contou que, em 1977, Therezinha viajou por vários países da Europa. Em algumas correspondências, contou à irmã que se sentia perseguida, pois mesmo viajando para outros países via as duas ou quatro mesmas pessoas, que, segundo ela, estariam seguindo seus passos.
Nessa época em que Therezinha passou a se sentir perseguida, um de seus amigos exilados lhe recomendou que tivesse cuidado, pois sabia que policiais do Chile e do Brasil estavam perseguindo exilados em diversos países. Em setembro ou outubro de 1977, desconfiando que suas correspondências estavam sendo violadas e que suas ligações eram interceptadas, ela interrompeu a comunicação com a irmã.
Therezinha Viana de Assis foi encontrada agonizante no dia 3 de fevereiro de 1978, sobre a calçada do edifício onde morava em Amsterdã, e levada, ainda com vida, para o Academische Ziekenhuis da Vrije Universiteir, onde foi operada, mas não resistiu. Ela era irmã do político e empresário Antonio Fernandes Viana de Assis, que foi deputado estadual cassado pela ditadura e, posteriormente, entre os anos de 1988 e 1989, foi prefeito de Aracaju. Ele morreu em junho de 2010, aos 75 anos.
Deputados e estudantes
Viana de Assis (PR), Cleto Maia (PRT), Nivaldo Santos (PR) e Baltazar Santos (PSD) foram os deputados cassados um mês e meio após o golpe. Também foi cassado o deputado federal João Machado Rollemberg, da Arena. No recrudescimento da repressão, e já no bipartidarismo, em 1969 também foram cassados os deputados estaduais Gilton Garcia, Rosendo Ribeiro, Aerton Silva, Chico de Miguel, Edson Mendes de Oliveira, Santos Mendonça, Baltazarino Santos e Jaime Araújo.
Estudantes, quase todos militantes e oriundos da UFS, sofreram nessa fase do chamado novo ciclo repressivo iniciado após o AI-5. Principalmente Bosco Rolemberg, Ana Côrtes, Wellington Mangueira e Laura Marques, que penaram nas mãos de sádicos torturadores. João Augusto Gama, Benedito Figueiredo e o poeta Mário Jorge Vieira também foram presos.
Em fevereiro de 1976, na Operação Cajueiro, 25 sergipanos foram presos arbitrariamente no quartel do 28º BC, alguns foram torturados e 18 foram processados. Wellington Mangueira estava outra vez dentre estes, além dos ferroviários Antônio Bitencourt, Carivaldo Lima Santos, Pedro Hilário dos Santos e Virgílio de Oliveira, dos advogados Jackson de Sá Figueiredo, João Santana Sobrinho, Elias Pinho e Carlos Alberto Menezes, do estudante e bancário Antônio José de Góis, do comerciante Faustino Alves de Menezes, do jornaleiro Gervásio Santos, do funcionário público Marcélio Bonfim, do agrônomo Rosalvo Alexandre, do petroleiro Milton Coelho de Carvalho, que ficou cego, e outros.
O deputado estadual Jackson Barreto, ligado ao PCB, sofreu a segunda prisão na Operação Cajueiro, foi logo liberado, mas respondeu a Inquérito Policial Militar.
Em maio de 2009, a Caravana da Anistia do Ministério da Justiça julgou, na sede da OAB em Aracaju, 34 processos de sergipanos que se declararam vítimas do regime militar: 22 processos foram deferidos, as vítimas declaradas anistiadas e o presidente da Comissão de Anistia, em nome do Estado brasileiro, desculpou-se pelo sofrimento causado a cada um desses cidadãos que ousaram lutar pela democracia. Dezoito anistiados tiveram reconhecido o direito de serem indenizados ou de terem corrigidas indenizações anteriormente conquistadas. Um deles foi Antônio José de Góis, o Goizinho, que foi torturado e permaneceu 21 dias encarcerado.
Em quatro processos, os requerentes ou familiares deles pediam apenas que o Estado declarasse reconhecer o sofrimento causado e os anistiasse. Dentre esses, processos do radialista e deputado estadual cassado Santos Mendonça e do poeta Mário Jorge, ambos falecidos. Também foram indenizados Jugurta Barreto (falecido posteriormente), Agamenon de Araújo Souza, José Alexandre Felizola Diniz, Rosalvo Alexandre, José Côrtes Rollemberg Filho, Delmo Naziazeno, Antônio Vieira da Costa, Zelita Correia, Walter Oliveira Ribeiro, João Augusto Gama, Benedito Figueiredo, Wellington Mangueira e Milton Coelho.

1 - Procure no seu livro de História, capitulo sobre o golpe militar de 1964,  a razão pela qual Seixas Dória foi deposto do cargo de governador de Sergipe e preso em Fernando de Noronha.
2 - Sobre os sergipanos mortos pela ditadura escreva um resumo sobre o acontecimento envolvendo cada um. No resumo descreva nome, profisssão, idade, escolaridade, motivos da prisão, como se deu a morte.
Leia o 2º texto abaixo e responda as perguntas abaixo:
Cinquenta anos sem Dom Távora
Por Henrique Maynart
Esta sexta-feira, 3 de abril, completa cinquenta anos que o arcebispo Dom José Vicente Távora partiu para outra. Primeiro arcebispo da Diocese Metropolitana de Aracaju, fundador e primeiro presidente do Movimento de Educação de Base (MEB), parceiro de primeira hora de Dom Helder Câmara, o sacerdote pernambucano figura entre os signatários da Doutrina Social da Igreja pela banda fina do cacique Serigy.
Impulsionador da Rádio Cultura como primeira experiência das "Escolas Radiofônicas", o projeto de alfabetização, educação para Reforma Agrária e Legislação, chegou a ter mais de 12 mil assistidos e centenas de monitores por todos os cantos de Sergipe. Crítico mordaz das Ligas Camponesas de Francisco Julião, o bispo entendia a necessidade de antecipar a organização dos trabalhadores rurais antes dos "radicais" que, hora ou outra, desceriam de Pernambuco para levantar acampamento.
Ainda está para surgir um Sindicato de Trabalhador Rural (STR) em Sergipe que não sustente um quadro de Dom Távora em qualquer de suas paredes. O projeto das Escolas Radiofônicas funcionou até o dia 1 de abril de 1964, mais conhecido como golpe civil-militar que assolou o país por duas décadas de pesadelo. Acossado, Dom Távora só não testemunhou o sol nascer quadrado por intervenção do general Juarez Távora, seu primo.
Enquadrado na base do fuzil, o projeto das Escolas Radiofônicas se converteu em primo desconhecido do propalado Mobral, sob o comando do bispo auxiliar, Dom Luciano Cabral Duarte. Ajudava um ou outro quando possível, levantou uns trocados para a militância do movimento estudantil da UFS para o lendário Congresso de Ibiúna, da União Nacional dos Estudantes, em 1968.
Mas já fazia um tanto que o coração do velho bispo retumbava doente na caixa dos peitos, não aguentaria o batuque de outro infarto, assim foi em 3 de abril de 1970. Seu bispo auxiliar, signatário dos conservadores do golpe civil-militar, dos generais de 1964, dos intolerantes à reforma agrária e direitos sociais, seguiu o projeto de enquadramento dos trabalhos pastorais aos ditames do golpe.
Em tempos de espetacularização da fé, de avanço da bancada fundamentalista, dos prepostos da Teologia da Prosperidade, reivindicar o trabalho de Dom Távora é fundamental para a batalha da memória dos debaixo, daqueles que batalham para dividir corretamente o mesmo pão.
Aracaju, 03 de abril de 2020.
1 - Dom Tavora arcebispo de Aracaju no ano de 1964, foi perseguido pelos mlitares que tomaram o poder e quase foi preso. Qual a razão dessa perseguição? Além da resposta no texto acima, busque a resposta na entrevista abaixo: 
Padre dos pobres e bispo dos operários. A história de Dom José Vicente Távora
   

Patricia Fachin  
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A relação de proximidade com a classe operária fez Dom José Vicente Távora ficar reconhecido como padre dos pobres. Mais tarde, como bispo no Rio de Janeiro, envolvido com a JOC, “ele se autodenominava o bispo dos operários”, conta Isaias Nascimento
“Dom Távora fez opção pela classe operária desde o início de sua vida sacerdotal lá na diocese de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Para ele, a JOC era ‘uma sementeira de líderes para o futuro’ dentro do movimento operário”. É assim que Isaias Nascimento, autor do livro Dom Távora, O Bispo dos Operários (São Paulo: Paulinas, 2008), lembra de Dom José Vicente Távora, nordestino que dedicou sua vida à causa dos excluídos. Dom Távora participou da reestruturação da Ação Católica Brasileira, no Rio de Janeiro, e fundou a Juventude Operária Católica – JOC, “cujo objetivo era formar operários católicos missionários atuando entre seus iguais para ‘converter a Jesus Cristo, não apenas este ou aquele colega individualmente, nem mesmo dezenas e dezenas de colegas, mas o próprio operariado’”.
Amigos oriundos do Nordeste brasileiro, Dom Hélder Câmara e Dom Távora “conheciam a sina dos filhos da seca” e viam, nas favelas do Rio de Janeiro, “seus irmãos nordestinos enxotados pela miséria e pela fome”. O clamor dos pobres, enfatiza Isaias Nascimento, fez com que os dois bispos firmassem “uma aliança em defesa dos excluídos nordestinos, os da Capital Federal e os que estavam na terra natal. Eles comprometeram e pagaram, ao longo de suas vidas todo tipo de perseguições, críticas jornalísticas, acusações mentirosas, mas não se desviaram do compromisso social com  o Ecce Homo – Eis o Homem (João 19, 4-5) continuamente crucificado”.

Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail para a IHU On-Line, o padre da diocese de Propriá, Sergipe, relata alguns momentos da trajetória de Dom Távora e menciona que o período mais difícil de sua vida foi a ditadura militar. “Dom Távora teve seu telefone grampeado. Recebia com frequência um coronel do exército para pressioná-lo. Teve que enfrentar uma prisão domiciliar. Várias lideranças do Movimento de Educação de Base – MEB e dos sindicatos de orientação católica foram presas em Sergipe e em várias partes do país. Viu também parte do seu clero e religiosas comprometidos serem intimados a depor na Polícia Federal. (...) Sentiu-se só, muitas vezes, sem a visita e o carinho do povo, dos pobres, mas resistiu o quanto pode, até o dia 03 de abril quando seu coração não suportou mais o 3º enfarto”.
Isaias Nascimento é pároco da Paróquia de Brejo Grande, que fica no lado sergipano na foz do Rio Francisco e Coordenador da Cáritas Diocesana de Propriá.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor pode nos contar como era o trabalho desenvolvido por Dom Távora na diocese e a iniciativa de fundar escolas operárias?

Isaias Nascimento - Quando chegou a Aracaju, em março de 1958, encontrou muita coisa encaminhada pelo seu antecessor Dom Fernando Gomes : grupos de Juventude Operária Católica – JOC (que ele mesmo fundou ainda como padre no início dos anos 50), Círculos Operários  assessorados por Mons. João Moreira Lima, grupos de Ação Católica Especializada e a entidade assistencial conhecida como Serviço de Assistência à Mendicância – SAME que acolhia pessoas abandonadas. Além de dar continuidade pastoral ao que já havia, fundou a Rádio Cultura de Sergipe que, juntamente, com a criação do Movimento de Educação de Base  – MEB, com suas escolas radiofônicas, ofereceu a educação do homem do campo e, a partir delas, fundaram e organizaram os primeiros Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e a sua Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Sergipe – FETASE. Dom Távora é reconhecido como o patrono do sindicalismo rural de Sergipe.
Ainda como seminarista na sua diocese de Nazaré da Mata, em Pernambuco, aderiu ao movimento da Ação Católica que estava se formando no Brasil. Ela – Ação Católica - formava liderança das grandes cidades e do interior com os princípios da Doutrina Social da Igreja, principalmente os contidos na encíclica papal Rerum Novarum . Quando padre recém ordenado, no início dos anos 1930, fundou diversas Escolas Operárias na mesma diocese, principalmente em Nazaré da Mata e Goiana, em Pernambuco. Pegou tão bem que ela chamou de Legião Pernambucana do Trabalho, tendo como finalidade formar a classe operária sob a orientação católica. Já havia naquele tempo Círculos Operários em alguns municípios de Pernambuco e em Aracaju. Foi ele quem conseguiu realizar um Congresso Operário no final dos anos 1930 lá em Goiana, recebendo delegações de todo a região Nordeste, no qual esteve presente também o Pe. Leopoldo Brentano . Sua relação com a classe operária o fez reconhecido como padre dos pobres. Depois, como bispo no Rio de Janeiro, já envolvido com a JOC, ele se autodenominava o bispo dos operários.

IHU On-Line - Qual a relação de Dom José Vicente Távora com o período polí¬tico getulista?

Isaias Nascimento - Lembremos que o Rio de Janeiro era a Capital Federal do Brasil, e a Igreja Católica, apesar de não ser a religião oficial do país, tinha muita influência junto aos poderes de uma República que ainda estava engatinhando. O Cardeal Leme , reconhecido como um bom estadista e pastoralista, procurou manter “cada qual no seu lugar”, isto é, procurou fortalecer a Igreja para continuar independente do Estado, e defender os interesses dela e seus princípios junto ao Estado e, para isto, formou uma boa equipe de padres competentes na defesa dos princípios da Doutrina Social da Igreja, relacionados às questões trabalhistas, educação católica e saúde, diante dos poderes públicos. Para tal intento, trouxe do Ceará o Pe. Hélder Câmara , de Pernambuco; Pe. José Vicente Távora e o Pe. Jorge Marcos . Ambos vivenciaram o período getulista. A liderança de Dom Hélder foi marcante neste período. Foram Dom Távora e Dom Hélder que no dia 24 de agosto de 1954 deram a notícia do suicídio de Getúlio Vargas , o então presidente da República, conforme o Padre Ivo Calliari detalhou em suas anotações: “Às 4h:30min do dia 24 de agosto de 1954, Dom Hélder e Dom José Vicente Távora vieram buscar Sua Emcia . Descemos imediatamente... No Palácio São Joaquim, ligamos o rádio: a notícia era que o Dr. Getúlio Vargas renunciara. Seguiu-se logo que pedira apenas licença de 90 dias. Celebrei às 6h:30min e Sua Emcia às 7h:30min na capela do Palácio São Joaquim. Depois do café, quando rezávamos o breviário, num pequeno hall em frente ao meu quarto, próximo ao refeitório, Dom José Vicente Távora chega com a estarrecedora notícia  do suicídio. Dom Jaime pôs as mãos na cabeça e disse: “Meu Deus! Foi um choque tremendo. Ficamos parados!... Só poderíamos rezar e foi o que fizemos: continuamos o breviário!...”

IHU On-Line - Dom Távora enfrentou problemas no governo Carlos Lacerda e no período da ditadura militar. Como ele se posicionava politicamente nesses momentos?

Isaias Nascimento - Dom Távora tomou posições públicas que foram marcantes na história do Brasil: o primeiro foi na tentativa de golpe em agosto de 1961, quando Jânio Quadros  renunciou e os militares impediram a posse de Jango  como presidente. Ele reagiu publicamente e, juntamente com ele, a classe política de Sergipe exigindo o respeito à Constituição. Somente depois de muitas negociações no Congresso Nacional conseguiram permitir sua posse como presidente no regime Parlamentarista, com menos poderes.
Outro momento foi sobre a prisão da cartilha do MEB intitulada Viver é lutar. Ocorrido no início do ano de 1964, quando Carlos Lacerda  mandou prendeu a cartilha do MEB. Dom Távora, não só por ser presidente do MEB, mas também por ser próprio da sua personalidade, não se intimidou diante do governador do Rio que acusava o material de ser comunista e, com ele, setores da mídia nacional fizeram uma humilhação pública (no programa Flávio Cavalcanti  que a rasgou ao vivo). Dom Távora assumiu publicamente a responsabilidade pelo material em uma nota dizendo que “Os bispos... não podiam ser indiferentes nem omissos numa tarefa da mais alta importância, exigida pela própria Caridade Evangélica, qual seja, a de emprestar sua cooperação ao desenvolvimento social e cultural do povo e à elevação do nível geral da sociedade”, visto que o material trazia uma leitura sobre a questão da reforma agrária.

E o momento mais difícil da vida dele, penso eu, foi o da ditadura militar. O que parecia ser um impedimento contra as forças do comunismo internacional, como pensava a maioria dos bispos que foram favoráveis ao golpe, foi um golpe no processo democrático por 26 longos anos da história nacional. A perseguição, as prisões e torturas foram piorando ao longo dos anos de forma ascendente, a ponto de a maioria dos bispos irem se afastando do regime, principalmente, a partir de 1966. Neste momento histórico é marcante o profetismo da Igreja no Brasil tendo como porta voz Dom Hélder Câmara, tanto nacional como internacionalmente. Todos os bispos envolvidos com a pastoral social daquele tempo foram tachados como subversivos e, consequentemente, juntamente com os seus próximos, perseguidos. Dom Távora teve seu telefone grampeado. Recebia com frequência um coronel do exército para pressioná-lo. Teve que enfrentar uma prisão domiciliar. Várias lideranças do MEB e dos sindicatos de orientação católica foram presas em Sergipe e em várias partes do país. Viu também parte do seu clero e religiosas comprometidos serem intimados a depor na Polícia Federal. Testemunhou também o estreitamento de relações comprometedoras entre o seu bispo auxiliar – depois sucessor - Dom Luciano José Cabral Duarte  e os militares a partir de 1967. Sentiu-se só, muitas vezes, sem a visita e o carinho do povo, dos pobres, mas resistiu o quanto pode, até o dia 3 de abril de 1970, quando seu coração não suportou mais o terceiro enfarto.

IHU On-Line - Qual a relação de Dom Távora com o padre Leopoldo Brentano?

Isaias Nascimento - Sei que os dois se encontraram no Rio para preparar o Primeiro Congresso dos Operários de Pernambuco que aconteceu em Goiana, Pernambuco, no dia 30 de dezembro de 1938. Não tenho notícias de qualquer relação anterior. Dizem que foi a partir do sucesso do referido que Congresso, que reuniu milhares de trabalhadores vindos em delegações do Nordeste e do Brasil, que  Pe. Leopoldo Brentano sugeriu o nome do Pe. Távora ao Cardeal Leme para ele atuar na Capital Federal junto aos Círculos Operários. Fato que aconteceu no final de 1939 para o início dos anos 1940.

IHU On-Line - O senhor diz que a amizade entre Dom Hélder e Dom Távora deu origem a uma transformação nas estruturas e estratégias da Ação Católica Brasileira. Em que consiste essa transformação e qual o impacto dela na tarefa de evangelização do país?

Isaias Nascimento - Primeiro, os dois eram nordestinos que conheciam a sina dos filhos da seca e vítimas das cercas. As favelas da então Capital Federal (Rio de Janeiro) mostravam seus irmãos nordestinos enxotados pela miséria e pela fome. O clamor dos pobres subiu até Deus que, por sua vez, comprometeu os dois nordestinos a verem nos seus irmãos o Cristo Crucificado e por Ele neles entregarem suas vidas. O clamor dos pobres os intimou a descer até eles. Foi por eles, portanto, os excluídos, que ambos se chamavam de “Eu”, assumindo juntos um mesmo projeto de vida sacerdotal, tanto como padres, e depois como bispos. Dom Távora e Dom Hélder firmaram uma aliança de nordestinos em defesa dos excluídos nordestinos, os da Capital Federal e os que estavam na terra natal. Eles comprometeram e pagaram, ao longo de suas vidas, todo tipo de perseguições, críticas jornalísticas, acusações mentirosas, mas não se desviaram do compromisso social com  o Ecce Homo – Eis o Homem (João 19, 4-5) continuamente crucificado.
Várias iniciativas aconteceram em todo o Brasil, principalmente no Nordeste, a fim de levar propostas para erradicar a miséria e a fome na região. Desde o encontro dos Bispos do Vale do São Francisco em Aracaju (em 1953), depois em Campina Grande (26-05-1956) e Natal (23 a 27-05-1959).

Aqui eu me somo à resposta de Raimundo Caramuru  que nos oferece mais informações. Veja o que ele descreve: “Ao longo dos anos 1940, três acontecimentos foram de capital relevância para a trajetória de Pe. Hélder e sua contribuição aos rumos da Igreja no Brasil. O primeiro foi sua amizade com o Pe. José Távora, um outro sacerdote nordestino, que Dom Leme havia trazido de Recife no início dos anos 1940, para desenvolver a pastoral operária na arquidiocese do Rio de Janeiro. Como os Círculos Operários do Pe. Leopoldo Brentano já estivessem atendendo os trabalhadores sindicalizados, Pe. Távora dedicou-se ao trabalho com aqueles que hoje seriam categorizados como excluídos, na sua maioria imigrantes recentes provenientes das áreas rurais do país, alojados nas periferias urbanas e nos morros favelizados. Este trabalho iniciado por Pe. Távora levantou o problema das favelas e das migrações, bem como suas conexões com os desafios enfrentados pelas populações rurais. A amizade entre Hélder e Távora teve um outro desdobramento, que deu origem ao segundo acontecimento, que, na realidade, havia constituído o grande sonho do Cardeal Leme nos últimos anos de vida deste insigne prelado: uma transformação nas estruturas e estratégias da Ação Católica Brasileira, adaptando-as às necessidades das tarefas de evangelização do país. Este segundo acontecimento foi tornado possível pelo contato de Hélder e Távora com o fundador da Juventude Operária Católica – JOC, o padre belga, altamente prestigiado pelo papa Pio XI , Joseph Cardijn . À primeira vista o segredo estava na pedagogia do ver-julgar-agir. Pouco a pouco, porém, tomou-se consciência de que muito mais do que uma opção pedagógica, a linha adotada por Cardijn implicava em uma opção teológico-pastoral, que aproximava o esforço de evangelização das suas fontes bíblicas e patrísticas e retomava toda a riqueza contida na teologia do Desígnio divino e na história da salvação” .

IHU On-Line - Por que, e em que contexto, Cardeal Leme chamou Dom Távora para trabalhar no Rio de Janeiro?

Isaias Nascimento - Creio que um dos fatores é que o Brasil estava se industrializando e a classe operária também se organizava em todo o país, tanto nas capitais como no interior. A ideologia comunista tomava corpo em várias categorias de trabalhadores das áreas urbana e rural, e no meio estudantil nas faculdades. A ida do Pe. Távora ao Rio de Janeiro foi para reforçar a equipe do Cardeal, da qual já fazia parte o Pe. Hélder Câmara, na execução de um “contra ataque” que tanto marcou a história da Igreja no Brasil, que foi o fortalecimento da Ação Católica Brasileira entre a elite intelectual e, mais tarde, a presença no meio dos jovens através das Juventude Agrária Católica - JAC, Juventude Estudantil Católica - JEC, Juventude Independente Católica - JIC, Juventude Operária Católica - JOC e Juventude Universitária Católica - JUC por onde a Igreja procurava evangelizar a sociedade à luz da Doutrina Social da Igreja.

IHU On-Line - Como o senhor descreve a atuação de Dom Távora na Juventude Operária Católica - JOC?

Isaias Nascimento - Ainda quando padre no Rio de Janeiro, ele participou da reestruturação da Ação Católica Brasileira a partir da visão do Pe. Cardijn, da Bélgica e fundador da JOC. A partir daí ele fundou a JOC do Rio de Janeiro cujo objetivo era formar operários católicos missionários atuando entre seus iguais para “converter a Jesus Cristo, não apenas este ou aquele colega individualmente, nem mesmo dezenas e dezenas de colegas, mas o próprio operariado”. Nas reuniões se usava o conhecido método de Cardijn: ver-julgar-agir, (que até hoje é usado pela Igreja na construção de seus documentos, a exemplo de Puebla e Aparecida), que ajuda a ler a realidade, analisar os dados coletados, e a construir novas ações/reações pastorais.
Dom Távora fez opção pela classe operária desde o início de sua vida sacerdotal lá na diocese de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Para ele, a JOC era “uma sementeira de líderes para o futuro” dentro do movimento operário. Ele mesmo disse que a “classe operária precisa dirigir-se com autonomia, com independência e grandeza, mas isto não pode ocorrer se ela não tem militantes de seu próprio meio, bem formados, capazes de tomar posição conscientemente, em todos os problemas que interessam ao bem do povo especialmente, quando se tratar da libertação econômica, social, moral e espiritual do mundo do trabalho. A JOC luta por um tempo diferente deste que está aí, cheio de clamorosas injustiças, de privilégios inaceitáveis e desacertos que revoltam, a cada instante. Onde houver um problema operário, particularmente dizendo respeito ao presente e ao futuro da juventude trabalhadora, aí estará presente sempre a JOC, atenta, ativa, cônscia de sua missão, isto é, a missão de fazer um programa de redenção da classe operária” (entrevista cedida ao jornal A Cruzada, 07-12-57).

Podemos vislumbrar aqui o início de uma revolução na prática pastoral da Igreja, começado lá na Europa, pois se inicia a semeadura de uma Igreja comprometida com os pobres. Vários padres que foram assistentes da Ação Católica e/ou da JOC foram nomeados bispos – Dom Hélder, Dom Távora e Dom Antonio Fragoso  - que fizeram a diferença quando da realização do Concílio Vaticano II, clamando por uma Igreja a serviço dos pobres. Eles formavam o grupo conhecido “Igreja dos Pobres”. Podemos vislumbrar aqui as sementes da Teologia da Libertação e do compromisso da Igreja com os pobres do nosso continente.

IHU On-Line - Em que consistiu o 1º Plano de Pastoral, proposto por Dom Távora. O que isso significou para a Igreja a partir de 1966?

Isaias Nascimento - Consistia na reorganização da Pastoral da Igreja local à luz do Concílio Vaticano II e ao Plano Nacional de Pastoral de Conjunto 1966-1967, como está registrado na apresentação do referido Plano:
“No começo de 1966, após o encerramento do Concílio, para responder ao convite do Papa, que num discurso importante, engajava todos os Bispos da América Latina numa renovação de caráter extraordinário, unitário e planificado, sentimos a necessidade de reunir com Dom Távora, alguns presbíteros, religiosas e leigos para, juntos, estudarmos o referido discurso de Paulo VI, refletirmos em comum, determinar os setores prioritários de pastoral.

O primeiro encontro foi realizado nos dias 18 e 19 de fevereiro. No seu comentário do discurso do Papa, Dom Távora ressaltou as seguintes palavras: “Precisamos duma pastoral dinâmica adaptada às transformações atuais”. Em círculos, tentamos descobrir “essas transformações”. Esta reflexão em comum permitiu determinar como [estruturar] setores prioritários na pastoral da Arquidiocese: setor estudantil e setor operário. Um grupo de trabalho para cada setor seria encarregado de dinamizar a pastoral dos mesmos. Houve tentativas de criação do Grupo de Trabalho do setor estudantil, sem sucesso. O GT do setor operário se reuniu semanalmente, coordenando todos os movimentos católicos.

Após os dias de estudo realizados em fevereiro, a Equipe Central do Secretariado recebeu e estudou o Plano Nacional de Pastoral de Conjunto 1966-1967, elaborado pelo Secretariado Nacional de Pastoral da CNBB, o qual convidava todas as dioceses a um esforço de renovação de conjunto, e aconselhava cada diocese elaborar um plano de pastoral, enquadrando-se nas diretrizes do Plano Nacional.
Em março deste mesmo ano (1966) a referida equipe elaborou um pré-plano (maio de 1966 – novembro de 1966) cuja finalidade seria levar presbíteros, religiosos e leigos da Arquidiocese a uma consciência mais objetiva da necessidade de uma pastoral de conjunto, a fim de poderem atuar ativamente na elaboração e na execução do Plano Diocesano, baseado nas diretrizes do Plano Nacional. Para atingir este objetivo, foi tomada como primeira iniciativa a criação da Assembleia Arquidiocesana, constituída de presbíteros, religiosos e leigos que, com o Sr. Arcebispo, devia assumir mais diretamente a elaboração do Plano Diocesano. Foi também lançado um boletim mensal de pastoral, órgão de ligação dos membros da Assembleia Arquidiocesana. E de informação pastoral para o clero.
Paralelamente foram planejados um programa de atualização para o clero, para as religiosas e para os leigos e um programa de dinamização dos serviços mais necessários para desenvolver uma pastoral de conjunto” .
Na prática, encontramos algumas experiências que, devido ao contexto da ditadura militar e às tensões internas na Igreja, em Aracaju, duraram pouco tempo: as comunidades sacerdotais (grupo de padres assumindo áreas pastorais) comprometidas com o homem do campo e comunidades de religiosas inseridas no meio dos pobres. Encontramos também sementes de formação de comunidades eclesiais nas periferias de Aracaju e a relação estreita da Igreja com a classe trabalhadora, principalmente do meio rural.

Nova idade média? Para alunos do 2º ano

A idade média como a conhecemos nos livros,  foi constituído com base em caracteristicas que estamos vendo  retornar nos tempos atuais.

Escreva relacionando passado e presente sobre as seguintes questões

Fanatismo religioso,  Pesquise no dicionário o que é Fanatismo. Como foi na idade média, e também no inicio do Estado moderno  e como está acontecendo nos tempos atuais. No minimo 10  linhas para o passado e 10 linhas para o presente.

Estado teocrático, Pesquise no dicionário o que é Teocracia. Como foi na idade média e também no inicio do Estado moderno e como está acontecendo nos tempos atuais.  No minino 10 linhas para o passado e 10 linhas para o presente.

Milicias a serviço de poderosos.   Pesquise no dicionário o que é Milicia. Como foi na idade média, e também no inicio do Estado moderno  e como está acontecendo nos tempos atuais. No minimo 10 linhas para o passado e 10 linhas para o presente.

Pestes. Pesquise no diciionário o que é Peste. Como foi na idade média, e também no inicio do Estado moderno  e como está acontecendo nos tempos atuais. No minimo 10 linhas para o passado e 10 linhas para o presente.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Atividades para alunos na quarentena 6º e 7º ano.


ROTEIRO DE ATIVIDADES DIDÁTICAS DE HISTÓRIA PARA ALUNOS DO 7º ANO E 4ª ETAPA.

TEMA: 1 - AS EPIDEMIAS  E SEUS IMPACTOS PARA A CRISE DA IDADE MÉDIA E SURGIMENTO DO ESTADO MODERNO.
2 - ESTUDO COMPARATIVO COM A PANDEMIA ATUAL DO CORONAVIRUS.
Texto 1 - "A peste negra deu uma importante contribuição para o fim da idade média, fazendo com que a Europa passasse a viver o período do Renascimento em que passou a valorizar a ciência, a cultura e as artes. A peste negra  com o decorrer do tempo, também deu uma importante contribuição para o enfraquecimento da igreja, assim como ajudou a construir a noção que a razão leva ao conhecimento e a cura de muitas doenças. Isso trouxe como consequência o surgimento das ideias iluministas e da ciência como conhecemos na atualidade."
Professor Zezito de Oliveira

Texto 2 - Consequências da peste negra
Ao mesmo tempo que a peste negra assolava a Europa, França e Inglaterra se batiam na Guerra dos Cem Anos. Esses dois fatores vão provocar uma série de mudanças sociais e econômicas na Baixa Idade Média.
Com a falta de mão de obra, os servos pensavam que o salário da jornada de trabalho iria aumentar, mas isso quase não aconteceu. Este fato gerou várias camponesas que desestabilizaram a sociedade medieval.
Por sua vez, a maioria dos servos deixam o campo e vão para as cidades onde havia trabalho e mais recursos. Assim, começa a crescer o poder da burguesia iniciando a crise do feudalismo e a revolução burguesa.
Da mesma forma, houve quem se apropriasse de terras, bens e heranças que foram deixados abandonados por aqueles que haviam morrido vítimas da peste.
Igualmente, surgiram ordens religiosas de flagelantes que costumavam se mutilar para buscar o perdão dos pecados.
Fonte: https://www.todamateria.com.br/peste-negra/
A Peste Negra (por Antonio Samarone, resenhando Joffre)
A maior epidemia da história foi a Peste Negra do Século XIV.
Começou na Ásia Central e se espalhou em todas as direções. Em 1334, causou cinco milhões de mortes na Mongólia e na China.
“Em 1347 a epidemia alcançou a Crimeia, o arquipélago grego e a Sicília. Em 1348 embarcações genovesas procedentes da Crimeia aportaram em Marselha, no sul da França, ali disseminando a doença. Em um ano, a maior parte da população de Marselha foi dizimada pela peste.”
“Em 1349 a peste chegou ao centro e ao norte da Itália e dali se estendeu por toda a Europa. Em sua caminhada devastadora, semeou a desolação e a morte nos campos e nas cidades. Povoados inteiros se transformaram em cemitérios. Calcula-se que a Europa tenha perdido pelo menos um terço de sua população.” .
Assim descreveu Bocaccio os sintomas da Peste Negra:
“Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões.”
“Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas quer humanas desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em consequência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse.” Bocaccio.
Uma das maiores dificuldades era dar sepultura aos mortos!
“A epidemia se apresentou de duas maneiras. Nos primeiros dois meses manifestava-se com febre e expectoração sanguinolenta e os doentes morriam em três dias; decorrido esse tempo manifestou-se com febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os doentes morriam em cinco dias. Era tão contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai.” .
A caridade desapareceu por completo.
Durante a epidemia, o povo procurava uma explicação. Para alguns tratava-se de castigo divino, punição dos pecados, aproximação do Apocalipse. Para outros, os culpados seriam os judeus, os quais foram perseguidos e trucidados. Somente em Borgonha, na França, foram mortos cerca de cinquenta mil deles.
Muitos médicos se dispuseram a atender aos pestosos com risco da própria vida. Adotavam para isso roupas e máscaras especiais. Alguns dentre eles evitavam aproximar-se dos enfermos. Prescreviam à distância e lancetavam os bubões com facas de até 1,80 m de comprimento.
Frades capuchinhos e jesuítas cuidaram dos pestosos em Marselha, correndo todos os riscos.
São Roque, foi escolhido o padroeiro dos pestosos. Tratava-se de um jovem que havia adquirido a peste em Roma e havia se retirado para um bosque para morrer. Foi alimentado por um cão, que lhe levava pedaços de pão e conseguiu recuperar-se.
As consequências sociais, demográficas, econômicas, culturais e religiosas da Peste Negra foram imensas:
1. As cidades e os campos ficaram despovoados; famílias inteiras se extinguiram; casas e propriedades rurais ficaram vazias e abandonadas, sem herdeiros legais.
2. A produção agrícola e industrial reduziu-se enormemente; houve escassez de alimentos e de bens de consumo; a nobreza se empobreceu; reduziram-se os efetivos militares.
3. Houve ascensão da burguesia que explorava o comércio.
4. O poder da Igreja se enfraqueceu com a redução numérica do clero e houve sensíveis mudanças nos costumes e no comportamento das pessoas.
A Peste Negra permaneceu endêmica por muitos séculos.
Entre 1894 e 1912 houve uma outra pandemia que teve início na Índia (onze milhões de mortes), estendendo-se à China, de onde trasladou-se para a costa do Pacífico, nos Estados Unidos.
No Brasil, a peste entrou pelo porto de Santos em 1899 e propagou-se a outras cidades litorâneas. A partir de 1906 foi banida dos centros urbanos, persistindo como enzootia em pequenos focos endêmicos residuais na zona rural.
Em Sergipe, a Peste Negra teve uma passagem branda no início do século XX. Não causou maiores estragos. As nossas Pestes foram outras.
A Peste Negra foi retratada em quadros notáveis: A Peste em Atenas, do pintor belga Michael Sweerts (1624-1664), A Peste em Nápoles, de Domenico Gargiulo (1612-1679), O Triunfo da Morte, do pintor belga Pieter Bruegel, o Velho (1510-1569), e São Roque, de Bartolomeo Mantegna (1450-1523).
Na literatura, inspirou Albert Camus, prêmio Nobel de Literatura, a escrever uma de suas obras mais conhecidas: A Peste.
Depois da leitura dos textos acima, realize as seguintes tarefas:
1 – Pesquise no dicionário de casa, na internet ou no livro, o significado das seguintes palavras:  Idade Média; Medieval; Pandemia; Epidemia; Renascimento Cultural; Iluminismo; Servos: Burguesia: Feudalismo.
2 – Localize nos textos acima  a explicação religiosa para a peste negra no século XIV?  Importante lembrar que nesse século, não existia  a ciência como conhecemos atualmente.
3 – Busque pesquisar na internet e/ou  em grupos do whatzapp,  a explicação religiosa para a pandemia do coronavirus no século XXI? 
4 – A peste negra no século XIV gerou preconceitos e violência, assim como a pandemia do coronavirus atualmente. Localize nos textos acima,  como isso aconteceu no passado e pesquise na internet ou em grupos de whatzapp como isso está acontecendo na atualidade.
4 – Em termos geográficos, a epidemia da peste negra no século XIV,  teve origem em região próxima em que surgiu  a pandemia  do coronavirus no século XXI? Identifique o continente do qual essa região faz parte.
5 – De que maneira a peste negra contribuiu no crescimento do comércio e nascimento de cidades?
6 – De que maneira a peste negra influenciou as revoltas camponesas do século XIV?
7 – Retire dos textos acima,  exemplos que mostrem  como as consequência da peste negra enfraqueceu o feudalismo?
8 – Qual a diferença entre pandemia e epidemia? Consulte a pesquisa do dicionário.



ROTEIRO DE ATIVIDADES DIDÁTICAS DE HISTÓRIA PARA ALUNOS DO 6º ANO E 3ª ETAPA.
A Peste de Disenteria em Aracaju. (por Antonio Samarone)

No início de 1908, Aracaju viveu uma Peste de disenteria (dejeções sanguinolentas frequentes, tenesmos violentos, cólicas e febre continua). Se levantou a suspeita sobre sua possível difusão pelo resto do Estado.

O tratamento era feito com doses mínimas de “ipeca” (Asclepias curassavica) e uma boa dose de ópio. Tintura de ópio ou elixir paregórico é um medicamento da classe dos narcóticos, de administração oral, utilizado como antidiarreico e analgésico.

Se defecava no mato, nas touceiras de bananeiras, nas praias, nos rios, nos fundos de quintais, ao pé dos muros e até nas praças.

A limpeza pública estava entregue aos urubus e às marés. Aliás, em Aracaju, a maré continua levando e trazendo excrementos para a porta das casas. Pelo menos para os que moram próximo ao Batistão.

Nos conta o Dr. Helvécio Andrade:

“A seca, a fome, a invasão de retirantes, levas de mendigos perambulavam pelas ruas do Aracaju em 1908. A epidemia foi de gravidade comparada ao flagelo da varíola de 1888.”

“A água de beber, que preocupa a população desde a fundação da cidade, continuava a mesma: uma infusão de mangue temperada com o que abunda em todos os quintais. A epidemia se alimenta desse quadro.”

Aconselha o doutor Helvécio Andrade:

“beber água fervida ou filtrada abster-se de frutas, legumes crus, usar os alimentos bem cozinhados, evitando refeições abundantes à noite”.

"O doente deve estar em aposentos vastos, asseados e muito bem ventilado. Todo cuidado com as dejeções dos doentes: o despejo deve ser levado constantemente e conter uma substância anti-séptica. É perigoso atirar no chão, nos quintais as dejeções dos doentes”.

Mesmo a tecnologia dos “water closet” WC, inglês e do bidet francês tendo chegado no Brasil no final do século XIX, o povo demorou a ter acesso a esses avanços sanitários em Aracaju.

Em Aracaju, muitos morreram e muitos escaparam da caganeira de 1908...

Leia o texto acima , pesquise no livro e na internet e reponda as seguintes questões.

1 - Em que século Aracaju viveu a epidemia de disenteria? Leia sobre contagem do tempo no livro.

2 – Como  viviam os aracajuanos pobres  quando aconteceu a epidemia da disenteria ? Retire do texto

2- Localize no texto,  qual a fonte principal  apresentada  pelo médico e professor Antonio Samarone. , autor do texto acima. Leia sobre fontes históricas no livro

3 - O que  foi recomendado para evitar a repetição de uma epidemia como essa? Retire do texto

4- Pesquise na internet o significado de “water closet” WC, inglês e do “bidet” francês.

5 – Dé a sua opinião sobre o texto acima, o que aprendeu de novidade, o que achou mais interessante e etc..

A REPRESSÃO A MULHER AO LONGO DA HISTÓRIA - Para alunos do 1º ano do Ensino Médio

O Martelo das Feiticeiras     
Malleus Maleficarum


Escrito em 1484 pelos inquisidores
Heinrich Kramer e James Sprenger

Breve Introdução Histórica
ROSE MARIE MURARO



Para compreendermos a importância do Malleus é preciso ter­mos uma visão ao menos mínima da história da mulher no interior da história humana em geral.

Segundo a maioria dos antropólogos, o ser humano habita este planeta há mais de dois milhões de anos. Mais de três quartos deste tempo a nossa espécie passou nas culturas de coleta e caça aos peque­nos animais. Nessas sociedades não havia necessidade de força física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar central.

Em nosso tempo ainda existem remanescentes dessas culturas, tais como os grupos mahoris (Indonésia), pigmeus e bosquímanos (África Central). Estes são os grupos mais primitivos que existem e ainda sobrevivem da coleta dos frutos da terra e da pequena caça ou pesca. Nesses grupos, a mulher ainda é considerada um ser sagrado, porque pode dar a vida e, portanto, ajudar a fertilidade da terra e dos animais. Nesses grupos, o princípio masculino e o feminino governam o mundo juntos. Havia divisão de trabalho entre os sexos, mas não ha­via desigualdade. A vida corria mansa e paradisíaca.

Nas sociedades de caça aos grandes animais, que sucedem a essas mais primitivas, em que a força física é essencial, é que se inicia a supremacia masculina. Mas nem nas sociedades de coleta nem nas de caça se conhecia função masculina na procriação. Também nas sociedades de caça a mulher era considerada um ser sagrado, que possuía o privilégio dado pelos deuses de reproduzir a espécie. Os homens se sentiam marginalizados nesse processo e invejavam as mulheres. Essa primitiva inveja do útero” dos homens é a antepassada da moderna “inveja do pênis” que sentem as mulheres nas culturas patriarcais mais recentes.

A inveja do útero dava origem a dois ritos universalmente encontrados nas sociedades de caça pelos antropólogos e observados em partes opostas do mundo, como Brasil e Oceania. O primeiro é o fenômeno da couvade, em que a mulher começa a trabalhar dois dias depois de parir e o homem fica de resguardo com o recém-nascido, recebendo visitas e presentes... O segundo é a iniciação dos homens. Na adolescência, a mulher tem sinais exteriores que marcam o limiar da sua entrada no mundo adulto. A menstruação a torna apta à maternidade e representa um novo patamar em sua vida. Mas os adolescentes homens não possuem esse sinal tão óbvio. Por isso, na puberdade eles são arrancados pelos homens às suas mães, para serem iniciados na “casa dos homens”. Em quase todas essas iniciações, o ritual é semelhante: é a imitação cerimonial do parto com objetos de madeira e instrumentos musicais. E nenhuma mulher ou criança pode se aproximar da casa dos homens, sob pena de morte. Desse dia em diante o homem pode “parir” ritualmente e, portanto, tomar seu lugar na cadeia das gerações...

Ao contrário da mulher, que possuía o “poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida que a tecnologia foi avançando. Enquanto as sociedades eram de coleta, as mulheres mantinham uma espécie de poder, mas diferente das culturas patriarcais. Essas culturas primitivas tinham de ser cooperativas, para poder sobreviver em condições hostis, e portanto não havia coerção ou centralização, mas rodízio de lideranças, e as relações entre homens e mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades patriarcais.

Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da heran­ça, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.

E só nas regiões em que a coleta é escassa, ou onde vão se esgotando os recursos naturais vegetais e os pequenos animais, que se inicia a caça sistemática aos grandes animais. E aí começam a se instalar a supremacia masculina e a competitividade entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviver, as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As guerras se tornam constantes e passam a ser mitificadas. Os homens mais valorizados são os heróis guerreiros. Começa a se romper a harmonia que ligava a espécie humana à natureza. Mas ainda não se instala definitivamente a lei do mais forte. O homem ainda não conhece com precisão a sua função reprodutora e crê que a mulher fica grávida dos deuses. Por isso ela ainda conserva poder de decisão. Nas culturas que vivem da caça, já existe estratificação social e sexual, mas não é completa como nas sociedades que se lhes seguem.

E no decorrer do neolítico que, em algum momento, o homem começa a dominar a sua função biológica reprodutora, e, podendo controlá-la, pode também controlar a sexualidade feminina. Aparece então o casamento como o conhecemos hoje, em que a mulher é propriedade do homem e a herança se transmite através da descendência masculina. Já acontece assim, por exemplo, nas sociedades pastoris descritas na Bíblia. Nessa época, o homem já tinha aprendido a fundir metais. Essa descoberta acontece por volta de 10000 ou 8000 a.C. E, à medida que essa tecnologia se aperfeiçoa, começam a ser fabricadas não só armas mais sofisticadas como também instrumentos que permitem cultivar melhor a terra (o arado, por ex.).

Hoje há consenso entre os antropólogos de que os primeiros hu­manos a descobrir os ciclos da natureza foram as mulheres, porque podiam compará-los com o ciclo do próprio corpo. Mulheres também devem ter sido as primeiras plantadoras e as primeiras ceramistas, mas foram os homens que, a partir da invenção do arado, sistematizaram as atividades agrícolas, iniciando uma nova era, a era agrária, e com ela a história em que vivemos hoje.

Para poder arar a terra, os grupamentos humanos deixam de ser nômades. São obrigados a se tornar sedentários. Dividem a terra e for­mam as primeiras plantações. Começam a se estabelecer as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estado, os primeiros Estados e os impérios, no sentido antigo do termo. As sociedades, então, se tor­nam patriarcais, isto é, os portadores dos valores e da sua transmissão são os homens. Já não são mais os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas, sim, a lei do mais forte. A comi­da era primeiro para o dono da terra, sua família, seus escravos e seus soldados. Até ser escravo era privilégio. Só os párias nômades, os sem-terra, é que pereciam no primeiro inverno ou na primeira escassez.

Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata para arar a terra. As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher era obrigada a sair virgem das mãos do pai para as mãos do marido. Qualquer ruptura desta norma podia significar a mor­te. Assim também o adultério: um filho de outro homem viria ameaçar a transmissão da herança que se fazia através da descendência da mulher. A mulher fica, então, reduzida ao âmbito doméstico. Perde qualquer capacidade de decisão no domínio público, que fica inteira­mente reservado ao homem. A dicotomia entre o privado e o público torna-se, então, a origem da dependência econômica da mulher, e esta dependência, por sua vez, gera, no decorrer das gerações, uma sub­missão psicológica que dura até hoje.

E nesse contexto que transcorre todo o período histórico até os dias de hoje. De matricêntrica, a cultura humana passa a patriarcal.

Exercicios

1 -  O texto acima trata da origem do patriarcado. Pesquise no dicionário o significado dessa palavra e retire do texto a explicação para a origem do patriarcado, enfatizando os aspectos biológicos e econômicos .
2 - O texto também fala da existência do matriarcado em um passado remoto. Pesquise no dicionário  significado de matriarcado. Retire do texto a explicação para a origem do matriarcado, enfatizando aspectos biológicos e econômicos.
3 – O texto acima trata de características do Paleolitico e do Neolitico, dois dos três períodos em que se divide a pré-história. Leia no seu livro as características de cada um desses períodos  e copie abaixo. Da mesma maneira identifique no texto acima, características do Paleolitico e do Neolitico, acrescentando ao que consta no livro.
4 – O texto oferece explicações para o casamento monogâmico e para o controle da sexualidade da mulher. Retire do texto essas explicações.

5 – Qual a sua opinião sobre o texto acima?  O que você aprendeu em termos de novidade? O que você já tinha conhecimento?

E o Verbo Veio Depois
“No principio era a Mãe, o Verbo veio depois.” l~ assim que Marilyn French, uma das maiores pensadoras feministas americanas, começa o seu livro Beyond Power (Summit Books, Nova York, 1985). E não é sem razão, pois podemos retraçar os caminhos da espécie atra­vés da sucessão dos seus mitos. Um mitólogo americano, em seu livro The Masks of God: Occidental Mythology (Nova York, 1970), citado por French, divide em quatro grupos todos os mitos conhecidos da criação. E, surpreendentemente, esses grupos correspondem às etapas cronológicas da história humana.

Na primeira etapa, o mundo é criado por uma deusa mãe sem au­xílio de ninguém. Na segunda, ele é criado por um deus andrógino ou um casal criador. Na terceira, um deus macho ou toma o poder da deusa ou cria o mundo sobre o corpo da deusa primordial. Finalmente, na quarta etapa, um deus macho cria o mundo sozinho.

Essas quatro etapas que se sucedem também cronologicamente são testemunhas eternas da transição da etapa matricêntrica da humanidade para sua fase patriarcal, e é esta sucessão que dá veracidade à frase já citada de Marilyn French.

Alguns exemplos nos farão entender as diversas etapas e a frase de French. O primeiro e mais importante exemplo da primeira etapa em que a Grande Mãe cria o universo sozinha é o próprio mito grego. Nele a criadora primária é Géia, a Mãe Terra. Dela nascem todos as protodeuses: Urano, osTitãs e as protodeusas, entre as quais Réia, que virá a ser a mãe do futuro dominador do Olimpo, Zeus. Há também o caso do mito Nagô, que vem dar origem ao candomblé. Neste mito africano, é Nanã Buruquê que dá à luz todos os orixás, sem auxílio de ninguém.

Exemplos do segundo caso são o deus andrógino que gera todos os deuses, no hinduísmo, e o yin e o yang, o principio feminino e o masculino que governam juntos na mitologia chinesa.

Exemplos do terceiro caso são as mitologias nas quais reinam em primeiro lugar deusas mulheres, que são, depois, destronadas por deuses masculinos. Entre essas mitologias está a sumeriana, em que primitivamente a deusa Siduri reinava num jardim de delícias e cujo poder foi usurpado por um deus solar. Mais tarde, na epopéia de Gilgamesh, ela é descrita como simples serva. Ainda, os mitos primitivos dos astecas falam de um mundo perdido, de um jardim paradisíaco governado por Xoxiquetzl, a Mãe Terra. Dela nasceram os Huitzuhuahua, que são os Titâs e os Quatrocentos Habitantes do Sul (as estrelas). Mais tarde, seus filhos se revoltam contra ela e ela dá à luz o deus que iria governar a todos, Huitzilopochtli.

A partir do segundo milênio a.C., contudo, raramente se registram mitos em que a divindade primária seja mulher. Em muitos deles, estas são substituídas por um deus macho que cria o mundo a partir de si mesmo, tais como os mitos persa, meda e, principalmente e acima de todos, o nosso mito cristão, que é o que será enfocado aqui.

Javé é deus único todo-poderoso, onipresente, e controla todos os seres humanos em todos os momentos da sua vida. Cria sozinho o mundo em sete dias e, no final, cria o homem. E só depois cria a mulher, assim mesmo a partir do homem. E coloca ambos no Jardim das Delícias onde o alimento é abundante e colhido sem trabalho. Mas, graças à sedução da mulher, o homem cede à tentação da serpente e o casal é expulso do paraíso.

Antes de prosseguir, procuremos analisar o que já se tem até aqui em relação à mulher. Em primeiro lugar, ao contrário das culturas primitivas, Javé é deus único, centralizador, dita rígidas regras de comportamento cuja transgressão é sempre punida. Nas primitivas mitologias, ao contrário, a Grande Mãe é permissiva, amorosa e não­ coercitiva. E como todos os mitos fundantes das grandes culturas tendem a sacralizar os seus principais valores, Javé representa bem a trans­formação do matricentrismo em patriarcado.

O Jardim das Delícias é a lembrança arquetípica da antiga harmonia entre o ser humano e a natureza. Nas culturas de coleta não se trabalhava sistematicamente. Por isso os controles eram frouxos e podia se viver mais prazerosamente. Quando o homem começa a dominar a natureza, ele começa a se separar dessa mesma natureza em que até então vivia imerso.

Como o trabalho é penoso, necessita agora de poder central que imponha controles mais rígidos e punição para a transgressão. É preciso usar a coerção e a violência para que os homens sejam obrigados a trabalhar, e essa coerção é localizada no corpo, na repressão da sexualidade e do prazer. Por isso o pecado original, a culpa máxima, na Bíblia, é colocado no ato sexual (é assim que, desde milênios, popular­mente se interpreta a transgressão dos primeiros humanos).

E por isso que a árvore do conhecimento é também a árvore do bem e do mal. O progresso do conhecimento gera o trabalho e por isso o corpo tem de ser amaldiçoado, porque o trabalho é bom. Mas é interessante notar que o homem só consegue conhecimento do bem e do mal transgredindo a lei do Pai. O sexo (o prazer) doravante é mau e, portanto, proibido. Praticá-lo é transgredir a lei. Ele é, portanto, limitado apenas às funções procriativas, e mesmo assim é uma culpa.

Daí a divisão entre sexo e afeto, entre corpo e alma, apanágio das civilizações agrárias e fonte de todas as divisões e fragmentações do homem e da mulher, da razão e da emoção, das classes...

Tomam ai sentido as punições de Javé. Uma vez adquirido o conhecimento, o homem tem que sofrer, O trabalho o escraviza. E por isso o homem escraviza a mulher. A relação homem-mulher-natureza não é mais de integração e, sim, de dominação. O desejo dominante agora é o do homem. O desejo da mulher será para sempre carência, e é esta paixão que será o seu castigo. Daí em diante, ela será definida por sua sexualidade, e o homem, pelo seu trabalho.

Mas o interessante é que os primeiros capítulos do Gênesis podem ser mais bem entendidos à luz das modernas teorias psicológicas, especialmente a psicanálise. Em cada menino nascido no sistema patriarcal repete-se, em nível simbólico, a tragédia primordial. Nos primeiros tempos de sua vida, eles estão imersos no Jardim das Delícias, em que to­dos os seus desejos são satisfeitos. E isto lhes faz buscar o prazer que lhes dá o contato com a mãe, a única mulher a que têm acesso. Mas a lei do pai proíbe ao menino a posse da mãe. E o menino é expulso do mundo do amor, para assumir a sua autonomia e, com ela, a sua maturidade. Principalmente, a sua nudez, a sua fraqueza, os seus limites. E à medida que o homem se cinde do Jardim das Delícias proporcionadas pela mulher-mãe que ele assume a sua condição masculina.

E para que possa se tornar homem em termos simbólicos, ele precisa passar pela punição maior que é a ameaça de morte pelo pai. Co­mo Adão, o menino quer matar o pai e este o pune, deixando-o só.

Assim, aquilo que se verifica no decorrer dos séculos, isto é, a transição das culturas de coleta para a civilização agrária mais avançada, é relembrado simbolicamente na vida de cada um dos homens do mundo de hoje. Mas duas observações devem ser feitas. A primeira é que o pivô das duas tragédias, a individual e a coletiva, é a mulher; e a segunda, que o conhecimento condenado não é o conhecimento dissociado e abstrato que daí por diante será o conhecimento dominante, mas sim o conhecimento do bem e do mal, que vem da experiência concreta do prazer e da sexualidade, o conhecimento totalizante que integra inteligência e emoção, corpo e alma, enfim, aquele conhecimento que é, especificamente na cultura patriarcal, o conhecimento feminino por excelência.

Freud dizia que a natureza tinha sido madrasta para a mulher por­que ela não era capaz de simbolizar tão perfeitamente como o homem. De fato, para podermos entender a misoginia que daí por diante caracterizará a cultura patriarcal, é preciso analisar a maneira como as ciências psicológicas mais atuais apontam para uma estrutura psíquica feminina bem diferente da masculina.

A mesma idade em que o menino conhece a tragédia da castração imaginária, a menina resolve de outra maneira o conflito que a conduzirá á maturidade. Porque já vem castrada, isto é, porque não tem pênis (o símbolo do poder e do prazer, no patriarcado), quando seu desejo a leva para o pai ela não entra em conflito com a mãe de maneira tão trágica e aguda como o menino entra com o pai por causa da mãe. Porque já vem castrada, não tem nada a perder. E a sua identificação com a mãe se resolve sem grandes traumas. Ela não se desliga inteira­mente das fontes arcaicas do prazer (o corpo da mãe). Por isso, também, não se divide de si mesma como se divide o homem, nem de suas emoções. Para o resto da sua vida, conhecimento e prazer, emoção e inteligência são mais integrados na mulher do que no homem e, por isso, são perigosos e desestabilizadores de um sistema que repousa inteiramente no controle, no poder e, portanto, no conhecimento dissociado da emoção e, por isso mesmo, abstrato.

De agora em diante, poder, competitividade, conhecimento, controle, manipulação, abstração e violência vem juntos. O amor, a integração com o meio ambiente e com as próprias emoções são os elementos mais desestabilizadores da ordem vigente. Por isso é preciso precaver-se de todas as maneiras contra a mulher, impedi-la de inter­ferir nos processos decisórios, fazer com que ela introjete uma ideologia que a convença de sua própria inferioridade em relação ao homem.

E não espanta que na própria Bíblia encontremos o primeiro indício desta desigualdade entre homens e mulheres. Quando Deus cria o homem, Ele o cria só e apenas depois tira a companheira da costela deste. Em outras palavras: o primeiro homem dá à luz (pare) a primei­ra mulher. Esse fenômeno psicológico de deslocamento é um mecanismo de defesa conhecido por todos aqueles que lidam com a psique humana e serve para revelar escondendo. Tirar da costela é menos violento do que tirar do próprio ventre, mas, em outras palavras, aponta para a mesma direção. Agora, parir é ato que não está mais ligado ao sagrado e é, antes, uma vulnerabilidade do que uma força. A mulher se inferioriza pelo próprio fato de parir, que outrora lhe assegurava a grandeza. A grandeza agora pertence ao homem, que trabalha e do­mina a natureza.

Já não é mais o homem que inveja a mulher. Agora é a mulher que inveja o homem e é dependente dele. Carente, vulnerável, seu desejo é o centro da sua punição. Ela passa a se ver com os olhos do homem, isto é, sua identidade não está mais nela mesma e sim em outro. O homem é autônomo e a mulher é reflexa. Daqui em diante, como o pobre se vê com os olhos do rico, a mulher se vê pelo homem.

Da época em que foi escrito o Gênesis até os nossos dias, isto é, de alguns milênios para cá, essa narrativa básica da nossa cultura patriarcal tem servido ininterruptamente para manter a mulher em seu devido lugar. E, aliás, com muita eficiência. A partir desse texto, a mulher é vista como a tentadora do homem, aquela que perturba a sua relação com a transcendência e também aquela que conflitua as relações entre os homens. Ela é ligada à natureza, à carne, ao sexo e ao prazer, domínios que têm de ser rigorosamente normatizados: a serpente, que nas eras matricêntricas era o símbolo da fertilidade e tida na mais alta estima como símbolo máximo da sabedoria, se transforma no demônio, no tentador, na fonte de todo pecado. E ao demônio é alocado o pecado por excelência, o pecado da carne. Coloca-se no sexo o pecado supremo e, assim, o poder fica imune à crítica. Apenas nos tempos modernos está se tentando deslocar o pecado da sexualidade para o poder. Isto é, até hoje não só o homem como as classes dominantes tiveram seu status sacralizado porque a mulher e a sexualidade foram penalizadas como causa máxima da de­gradação humana.

O Malleus como Continuação do Gênesis

Enquanto se escrevia o Gênesis no Oriente Médio, as grandes culturas patriarcais iam se sucedendo. Na Grécia, o status da mulher foi extremamente degradado. O homossexualismo era prática comum entre os homens e as mulheres ficavam exclusivamente reduzidas às suas funções de mãe, prostituta ou cortesã. Em Roma, embora durante certo período tivessem bastante liberdade sexual, jamais chegaram a ter po­der de decisão no Império. Quando o Cristianismo se torna a religião oficial dos romanos no século IV, tem início a Idade Média. Algo novo acontece. E aqui nos deteremos porque é o período que mais nos interessa.

Do terceiro ao décimo séculos, alonga-se um período em que o Cristianismo se sedimenta entre as tribos bárbaras da Europa. Nesse período de conflito de valores, é muito confusa a situação da mulher. Contudo, ela tende a ocupar lugar de destaque no mundo das decisões, porque os homens se ausentavam muito e morriam nos períodos de guerra. Em poucas palavras: as mulheres eram jogadas para o domínio público quando havia escassez de homens e voltavam para o domínio privado quando os homens reassumiam o seu lugar na cultura.

Na alta Idade Média, a condição das mulheres floresce. Elas têm acesso às artes, às ciências, à literatura. Uma monja, por exemplo, Hrosvitha de Gandersheim, foi o único poeta da Europa durante cinco séculos. Isso acontece durante as cruzadas, período em que não só a Igreja alcança seu maior poder temporal como, também, o mundo se prepara para as grandes transformações que viriam séculos mais tarde, com a Renascença.

E é logo depois dessa época, no período que vai do fim do século XIV até meados do século XV III que aconteceu o fenômeno generalizado em toda a Europa: a repressão sistemática do feminino. Estamos nos referindo aos quatro séculos de “caça às bruxas”.

Deirdre English e Barbara Ehrenreich, em seu livro Witches, Nurses and Midwives (The Feminist Press, 1973), nos dão estatísticas aterradoras do que foi a queima de mulheres feiticeiras em fogueiras durante esses quatro séculos. “A extensão da caça às bruxas é espantosa. No fim do século XV e no começo do século XVI, houve milhares e milhares de execuções - usualmente eram queimadas vivas na fogueira - na Alemanha, na Itália e em outros países. A partir de meados do século XVI, o terror se espalhou por toda a Europa, começando pela França e pela Inglaterra. Um escritor estimou o número de execuções em seiscentas por ano para certas cidades, uma média de duas por dia, ‘exceto aos domingos’. Novecentas bruxas foram executadas num único ano na área de Wertzberg, e cerca de mil na diocese de Como. Em Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num único dia; no arcebispado de Trier, em 1585, duas aldeias foram deixadas apenas com duas mulheres moradoras cada uma. Muitos escritores estimaram que o número total de mulheres executadas subia à casa dos milhões, e as mulheres constituíam 85~Vo de todos os bruxos e bruxas que foram executados.”

Outros cálculos levantados por Marilyn French, em seu já citado livro, mostram que o número mínimo de mulheres queimadas vivas é de cem mil.

Desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração. Em muitas tribos primitivas eram elas as xamãs. Na Idade Média, seu saber se intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres não tinham como cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres tão camponesas e tão pobres quanto elas. Elas (as curadoras) eram as cultivadoras ancestrais das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores anatomistas do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia em aldeia, e as médicas populares para todas as doenças.

Mais tarde elas vieram a representar uma ameaça. Em primeiro lugar, ao poder médico, que vinha tomando corpo através das universidades no interior do sistema feudal. Em segundo, porque formavam organizações pontuais (comunidades) que, ao se juntarem, formavam vastas confrarias, as quais trocavam entre si os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma. Mais tarde, ainda, essas mulheres vieram a participar das revoltas camponesas que precederam a centralização dos feudos, os quais, posteriormente, dariam origem às futuras nações.

O poder disperso e frouxo do sistema feudal para sobreviver é obrigado, a partir do fim do século XIII, a centralizar, a hierarquizar e a se organizar com métodos políticos e ideológicos mais modernos. A noção de pátria aparece, mesmo nessa época (Klausevitz).

A religião católica e, mais tarde, a protestante contribuem de maneira decisiva para essa centralização do poder. E o fizeram através dos tribunais da Inquisição que varreram a Europa de norte a sul, leste e oeste, torturando e assassinando em massa aqueles que eram julga­dos heréticos ou bruxos.

Este “expurgo” visava recolocar dentro de regras de comporta­mento dominante as massas camponesas submetidas muitas vezes aos mais ferozes excessos dos seus senhores, expostas à fome, à peste e à guerra e que se rebelavam. E principalmente as mulheres.

Era essencial para o sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade, conforme constata a obra de Michel Foucault, História da Sexualidade. Começa a se construir ali o corpo dócil do futuro trabalhador que vai ser alienado do seu trabalho e não se rebelará. A partir do século XVII, os controles atingem profundidade e obsessividade tais que 05 menores, os mínimos detalhes e gestos são normatizados.

Todos, homens e mulheres, passam a ser, então, os próprios controladores de si mesmos a partir do mais íntimo de suas mentes. E assim que se instala o puritanismo, do qual se origina, segundo Tawnwy e Max Weber, o capitalismo avançado anglo-saxão. Mas até chegar a esse ponto foi preciso usar de muita violência. Até meados da Idade Média, as regras morais do Cristianismo ainda não tinham penetrado a fundo nas massas populares. Ainda existiam muitos núcleos de “pa­ganismo” e, mesmo entre os cristãos, os controles eram frouxos.

As regras convencionais só eram válidas para as mulheres e homens das classes dominantes através dos quais se transmitiam o poder e a herança. Assim, os quatro séculos de perseguição às bruxas e aos heréticos nada tinham de histeria coletiva, mas, ao contrário, foram uma perseguição muito bem calculada e planejada pelas classes domi­nantes, para chegar a maior centralização e poder.

Num mundo teocrático, a transgressão da fé era também transgressão política. Mais ainda, a transgressão sexual que grassava solta entre as massas populares. Assim, os inquisidores tiveram a sabedoria de ligar a transgressão sexual à transgressão da fé. E punir as mulheres por tudo isso. As grandes teses que permitiram esse expurgo do femi­nino e que são as teses centrais do Malleus Maleficarum são as seguintes:

1) O demônio, com a permissão de Deus, procura fazer o máximo de mal aos homens a fim de apropriar-se do maior número possível de almas.

2) E este mal é feito prioritariamente através do corpo, único “lugar” onde o demônio pode entrar, pois “o espírito [do homem] é governa­do por Deus, a vontade por um anjo e o corpo pelas estrelas” (Parte 1, Questão 1). E porque as estrelas são inferiores aos espíritos e o demônio é um espírito superior, só lhe resta o corpo para dominar.

3) E este domínio lhe vem através do controle e da manipulação dos atos sexuais. Pela sexualidade o demônio pode apropriar-se do corpo e da alma dos homens. Foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens.

4) E como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se tornam as agentes por excelência do demônio (as feiticeiras). E as mulheres têm mais conivência com o demônio “porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta” (1,6).

5) A primeira e maior característica, aquela que dá todo o poder às feiticeiras, é copular com o demônio. Satã é, portanto, o senhor do prazer.

6) Uma vez obtida a intimidade com o demônio, as feiticeiras são capazes de desencadear todos os males, especialmente a impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se de paixões desordenadas, abortos, oferendas de crianças a Satanás, estrago das colheitas, doenças nos animais etc.

7) E esses pecados eram mais hediondos ao que os próprios pecados de Lúcifer quando da rebelião dos anjos e dos primeiros pais por ocasião da queda, porque agora as bruxas pecam contra Deus e o Redentor (Cristo), e portanto este crime é imperdoável e por isso só pode ser resgatado com a tortura e a morte.

Vemos assim que na mesma época em que o mundo está entrando na Renascença, que virá a dar na Idade das Luzes, processa-se a mais delirante perseguição às mulheres e ao prazer. Tudo aquilo que já es­tava em embrião no Segundo Capítulo do Gênesis torna-se agora sinistramente concreto. Se nas culturas de coleta as mulheres eram quase sagradas por poderem ser férteis e, portanto, eram as grandes estimuladoras da fecundidade da natureza, agora elas são, por sua capacidade orgástica, as causadoras de todos os flagelos a essa mesma natureza. Sim, porque as feiticeiras se encontram apenas entre as mulheres orgásticas e ambiciosas (1, 6), isto é, aquelas que não tinham a sexualidade ainda normatizada e procuravam impor-se no domínio público, exclusivo dos homens.

Assim, o Malleus Maleficarum, por ser a continuação popular do Segundo Capítulo do Gênesis, torna-se a testemunha mais importante da estrutura do patriarcado e de como esta estrutura funciona concretamente sobre a repressão da mulher e do prazer.

De doadora da vida, símbolo da fertilidade para as colheitas e os animais, agora a situação se inverte: a mulher é a primeira e a maior pecadora, a origem de todas as ações nocivas ao homem, à natureza e aos animais.

Durante três séculos o Malleus foi a bíblia dos Inquisidores e esteve na banca de todos os julgamentos. Quando cessou a caça às bruxas, no século XVIII, houve grande transformação na condição feminina. A sexualidade se normatiza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do diabo e, portanto, passível de punição. Reduzem se exclusivamente ao âmbito doméstico, pois sua ambição também era passível de castigo. O saber feminino popular cai na clandestinidade, quando não é assimilado como próprio pelo poder médico masculino já solidificado. As mulheres não têm mais acesso ao estudo como na Idade Média e passam a transmitir voluntariamente a seus filhos valores patriarcais já então totalmente introjetados por elas.

É com a caça às bruxas que se normatiza o comportamento de homens e mulheres europeus, tanto na área pública como no domínio do privado.

E assim se passam os séculos.

A sociedade de classes que já está construída nos fins do século XVIII é composta de trabalhadores dóceis que não questionam o sistema.

As Bruxas do Século XX

Agora, mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos ter uma noção das suas dimensões. Neste final de século e de milênio, o que se nos apresenta como avaliação da sociedade industrial? Dois terços da humanidade passam fome para o terço restante superalimentar-se; além disto há a possibilidade concreta da destruição instantânea do planeta pelo arsenal nuclear já colocado e, principalmente, a destruição lenta mas contínua do meio ambiente, já chegando ao ponto do não-retorno. A aceleração tecnológica mostra-se, portanto, muito mais louca dos inquisidores.

Ainda neste fim de século outro fenômeno está acontecendo: na mesma jovem rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no mundo público e a procura do prazer sem repressão. A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina.

Assim, hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas que não podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na história do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva.

Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas!

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